sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Náufragos



Não importa de quem é a culpa,
Os condenados somos nós

Crimes inesquecíveis
Como perdoá-los?

Mais nove, mais nove,
Mais nove, mais nove...
É essa a contagem

Navio negreiro
Em brasa de partida
Na estalagem

Remos, rimas
Meninos e meninas
E a mesma sina:
Dores de idas
Silêncio das voltas
Torpor de chegadas

Mais outro, mais nove
Já são mais de sessenta
Inove

Gemidos, espremidos
Confinados, suados
Nos porões carcomidos, petrificados
Deixam suas paixões
Enfurnam-se nos grotões das borras

Masmorras marítimas...
E não se pode mudar a direção
Bordo, estibordo...
Não fazem sentido àqueles
Que não controlam o leme
E não sabem pra onde vão

Na proa, na popa, no convés
Prancha à beira mar
Seguir, zarpar, ancorar
Cantar, sorrir, chorar

Treme o silêncio antes da queda:
Mais um a nadar
E retumbam os tambores
Com o balanço do mar
Nasce o blues, o samba
E outras formas de lamentar

O choro doce da menina
Mistura-se ao som do navio
Que avisa:
Não há mais como voltar

Mas é preciso resistir para outra nação se criar
Para nova flâmula ganhar o beijo do ar
E as lágrimas encontrarem a água do mar
Formando ondas de amor e espuma
Nova aurora há de chegar

Colorindo as lacunas pálidas
Dissolvendo o negror das lástimas
Gingando ao sabor da brisa
Jogando sua mandinga pelo ar

Maldizeres desprovidos de rima,
Tortas loucuras, jogos de azar,
Macumbas, sonhos e desejos
Pra Exú e Iemanjá

Tambores ritmados em coro
Mãos que rebatem o couro
Cantigas de benfazejos
Ecoando pela orla
Revolvendo céu e areia
Num só horizonte

Gamelas vazias viram atabaques
E entoam o ritmo da fome,
Fome que o bicho homem já não pode saciar

Secam as peles infames
Cansadas de tanto sugar
Mas nada tomba o ébano que nasce sob o árduo sol
Brotando entre as ranhuras áridas da terra, o pó
Contorcendo-se em parto doloroso
Até que é chegada a hora.....

E a cada nove meses, o ciclo se renova,
Mais um membro da tribo
Chega à selva dos brancos
Um crepúsculo-alvorada
Envolto pela lava branca da hipocrisia

Mas o negro tem duas peles,
É rijo e persiste
Insiste com o dedo em riste

O barco segue,
A saga muda
E o negro resiste

Ainda que o grito pareça mudo
E a vida amargura
“É preciso içar novas velas,
Mudar a direção”,
Grita Mandela aos anônimos

É sina que separa os antônimos,
No hiato eterno entre negros e brancos
Dígrafos que se arrastam na arrebentação
E oxidam ao sabor da maresia inclemente

Castigando sol após sol condenados e inocentes
Fustigando as vértebras com o fio rude do couro
Pele contra pele, antagonismo febril e sangrento

Ao léu, sem rumo, no relento,
As naus levam a carne crua para ser vendida nas ruas
Pedaços rubros estapeiam-se já mortos
Feridos perenemente sob a ardência do sal ao sol

E a pergunta ecoa pelos oceanos:
Onde e quando essa viagem irá terminar?

Se é que começou, se não estamos a delirar

Poderia tudo ser miragem,
Desejo, estupor
Pouco importa a cor,
Branco ou preto,
Dentro sempre corre o mesmo sangue
Néctar escarlate,
Mote, motim líquido nas veias
Estopim sem fim, quimera

Pólvora que arde na imensidão dos poros
Narinas ressecadas pela chibata invisível
Sombras cortantes,
Dor, odor, calor, rancor,
Humanos, desumanos
Na mesma batalha

Fogueira, flamas dançantes,
Espumas que flutuam errantes
Sem ninguém
Ama, senhor, amantes
Por mal ou por bem

Sacerdócio maldito, sina,
Arautos do húmus, do podre
Ode ao império, ao ouro
Tirado de Minas

Bebericando - estes reis inertes - nas corredeiras douradas
E abóbadas celestes
Das igrejas barrocas
Sistinas capelas, aleijadas
Mutiladas pela maldita adoração ao ouro
Bezerros inertes do mercantilismo
Encantados pela púrpura ganância
E pela sede do falso oásis da riqueza
Que leva os ambiciosos ao deserto da penúria

Misturando-os aos grãos,
De modo que os mastiguem
E os louvem em missas

Pegadas, cascos, apagados pelo vento
Veneno e remédio,
A tentativa de intermédio do homem com o divino?

Épica trilha em busca do imponderável
Do indivisível, da pseudo dualidade
Inexiste entre alma e mente
Da amorfa massa que nos faz sofríveis e amáveis
Seja por mal, seja por bem
E assim seja
Amém



Eduardo C. Mendonça / Rodolfo Araújo

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Contínuo Ando



Avante, levante-se!
Mas abaixe a tua espada
Não há honra
Nessa cruzada
Espera, espreita
Mas não te sujeitas
Ao que vês pela estrada
Ande, continue...
Segue a tua jornada
O sol sempre brilha
Ao raiar da alvorada

Eduardo C. Mendonça




segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Aforismo



Valor

Pois se tudo tem um preço, o que vale é o apreço.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Entreletras



O poema a se formar
Tem versos e reversos
Sempre a dialogar
Por isso peço
Aos dispersos
Pra se concentrar

Vamos devagar
Pra ninguém se cansar
Mas de forma constante
Pra dizer tudo que é importante

Começo pela palavra vida
Pois não é bem compreendida
Depois viria a palavra morte,
Que, por sorte, foi excluída

Mas tenha calma:
A palavra alma
Não vai ser corrompida

Quanta satisfação!
A palavra prisão
Vai ser abolida

Da palavra medo
Digo que tenho medo
E a palavra assassino
Essa eu elimino

Mas que beleza!
Destronaram a palavra
Realeza

É bom saber que a palavra esperança
Sempre se renova
No olhar de uma criança
Você tem a prova

A palavra sossego é o segredo
Mas com a palavra namorada,
Atenção: ela precisa ser bem cuidada

Da palavra feio
Tenho um grande receio
Já a palavra bonito
É o que eu sempre tenho dito

A palavra dinheiro,
Quando farta é opulência
Quando falta é desespero,
Paciência

Quanto à palavra desejo
Uso-a com muito cuidado
Porque tudo o que ensejo
A mim é retornado

A palavra fome não tem raça
Nem tem nome
Mas tem que ser saciada
Já que a palavra pão
Será compartilhada

Com a palavra religião
Não se irrite,
Esqueça
O importante é a palavra fé
E essa não tem pé,
Nem cabeça,
Acredite

A palavra trabalho
Nunca pode ser carta fora do baralho
E a palavra liberdade
É só pra quem tem responsabilidade

Sei que a palavra dor
Também tem o seu valor
E a palavra tristeza
Tem lá a sua beleza

Mas de uma coisa tenho certeza:
A palavra mãe é única
E só quem tem uma
Sabe a grandeza

E a palavra saudade,
Que complexidade!
Vive da ausência
E da vontade

A palavra ciência
Busca se renovar
Mas não consegue superar
A palavra experiência

Já a palavra ópio
Me entorpece
Enquanto a palavra ócio
Muito me apetece

Dizem que a palavra laxante
É um ótimo desintoxicante
E que pra palavra intuição
Ainda não tem definição

Da palavra respeito
Muito tenho cuidado
Num local reservado
Dentro do peito

A palavra gelo esfria
Enquanto a palavra fogo alumia
Já a palavra arte é inspiração
E a palavra melodia
Pra tocar o coração
E levar harmonia por toda parte

A palavra mulher,
Enquanto der
Defino por criadora
Porque sei que a palavra homem
É destruidora

Mas tem a palavra chance
Para cada tropeço
E a palavra instante
Para todo recomeço

Tem também a palavra história
Pra guardar na memória
E a palavra semente
Pra criar o futuro da gente

A palavra universo
É um grande paralelo
E a palavra verso,
Um pequeno elo

E a palavra sonho
Vai se realizar
Com isso, a palavra utopia,
Quem diria, vai se concretizar

Mas a palavra mágica é a alegria
Porque é a que mais contagia
E as que ficam pra toda a eternidade
É amor e amizade


Eduardo C. Mendonça

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Solidão


Solidão é uma ilha
Pois de que adianta estar rodeado
Pela imensidão das águas
Se o destino te encilha?

Eduardo C. Mendonça